Antes de autorizar a partida da diligência que conduziria o impaciente reverendo Jackson e sua bela filha à Tombstone, o coronel Farrell precisava resolver um problema obviamente pequeno, porém embaraçoso para uma autoridade do exército: tratava-se do sumiço do tenente Blueberry, avistado pela última vez na madrugada anterior, em seu habitual estado de embriaguez.
O cabo Martinez, responsável pela guarda noturna, tentava explicar-se ao coronel:
- Mas, senhor! Ele estava cambaleando em direção ao alojamento. Achei que iria para a cama dormir!
Prontamente, Martinez relatou que, do alto de sua torre de vigília, presenciara o tenente Blueberry atravessando o pátio do forte em direção ao quarto onde costumava dormir. Trazia uma garrafa sob o braço, e cantava uma melodia arrastada, sem parecer importar-se com o temporal que despencava-lhe sobre a cabeça, com o vento frio que agitava as abas do sobretudo, ou com a lama que emporcalhava-lhe as botas e a parte mais baixa das calças. Conhecedor da celebridade de Blueberry em farras noturnas – uma má fama compensada por grande habilidade em ação, o que, em tempos ameaçadores e hostis como o eram aqueles, justificava sua presença no exército – mesmo assim o cabo Martinez jamais imaginou que algo de ruim pudesse acontecer a um pobre homem derrubado pelo álcool e, concluindo que Blueberry estava indo dormir, bem, decidiu que haviam mais perigos rondando o forte do que um bêbado endereçando o traseiro à cama.
A cama do tenente, porém, estava vazia, e então um pequeno grupo de busca foi formado. Os soldados designados precisaram enfiar-se sob o aguaceiro que continuava a cair nas montanhas, vasculhando cada canto do forte em busca do desaparecido. O coronel Farrell, protegendo-se da chuva na varanda que antecipa-se à porta de seu escritório, acompanhava a tudo em silêncio. Mantinha os braços cruzados na frente do peito, a habitual expressão dura e fechada no rosto, e nada falava – apenas, volta e meia, pigarreava ou resmungava com a garganta.
Dentro da diligência, a impaciência do reverendo começava a transformar-se em histeria. A bela Marjorie segurava-lhe as mãos com delicadeza, tentando acalmá-lo, mas não conseguiu impedir a inquietação de seu pai – um homem que, por natureza, apresentava um aspecto enfurecido. Logo, o velho reverendo cedeu à raiva, e, puxando a cortina que cobria a janela da carruagem, exorcizou os demônios do inferno com os seguintes gritos:
- É ÓBVIO QUE EU ESPERAVA LIDAR COM INCOMPETENTES NUM LUGAR COMO ESTE, MAS NUNCA ACHEI QUE ECONTRARIA GENTE TÃO BURRA!!! VAMOS, CORONEL, O QUE O SENHOR ESTÁ ESPERANDO???
- Papai – admoestou-lhe Marjorie, tenha calma! Isto não são coisas de se dizer.
- Hunf! – resmungou o reverendo, sem lhe dar atenção.
Assim, depois do primeiro grito, o reverendo descontrolou-se e não mais parou de berrar. Permaneceu na janela, mantendo com o braço a cortina afastada, e acompanhando atentamente o movimento dos soldados que caminhavam sob a forte chuva, em busca do tenente sumido. De quando em quando, o reverendo esbravejava, incitando o coronel a abandonar as buscas e ordenar ao cocheiro que atiçasse os cavalos de uma vez! Seus gritos eram histéricos, e a bela Marjorie, de cabelos loiros e olhos azuis, com delicadas mãos brancas, acariciava as veias saltadas na mãos do velho pai, tentando, inutilmente, lhe acalmar.
O coronel, sem ligar para os brados do reverendo, continuou em sua pose ereta e determinada, apenas ouvindo as informações que os soldados, molhados e sujos de lama, volta e meia traziam. Nada no celeiro, Senhor. Alguém procurou no saloon? Eu procurei, coronel, mas não estava lá. E, negativa após negativa, por baixo do basto bigode grisalho, o Coronel exclamou:
- Mais uma deste Blueberry!
Ordenou, então, que alguns soldados dessem busca nos bosques, do lado de fora do forte.
- Mas, senhor – argumentou um dos soldados – é impossível! Eu mesmo fiz a guarda na porta, ontem! Não poderia ter passado ali!
- Cale-se! – interrompeu o coronel. Conheço este Blueberry. Dele, espero até o impossível.
Porém, no momento em que os homens arrastavam a pesada porta de madeira – que estava um pouco atolada na lama – ouviram-se os gritos de um dos soldados, na parte norte da extensa fortificação. “Aqui!” – gritou, “Encontrei! Ajudem-me a tirá-lo daqui!”, fazendo com que todos imediatamente corressem naquela direção, espirrando lama aonde enfiavam as botas. A notícia, de forma alguma, acalmou o agitado reverendo, e o coronel permaneceu parado em sua varanda, coração pulando no peito, ansioso em saber da mais nova façanha noturna do tal Blueberry.
Quando os soldados chegaram ao local, viram seu companheiro tentando levantar um corpo atirado na lama, dentro do cercado do chiqueiro. Aproximando-se, reconheceram a figura controversa do tenente Blueberry dormindo entre os porcos, que grunhiam e caminhavam ao seu redor. O soldado tentava levantar o tenente pelos braços, mas como, ainda ébrio, Blueberry não lhe facilitava o serviço, outro acorreu depressa para ajudar: pegou o tenente pelas pernas, e juntos levantaram o corpo do chão.
O capitão ordenou que jogassem Blueberry na carruagem. Mas o reverendo, percebendo que os soldados pretendiam introduzir aquele homem enlameado e sujo de merda no mesmo ambiente em que estavam ele e sua filha, opôs-se com ira, e falou aos berros, de indicador em riste, fazendo-os recuar:
- CORONEL FARREL, QUE FALTA DE CONSIDERAÇÃO! O SENHOR ACREDITA MESMO QUE VOU ACEITAR VIAJAR AO LADO DESTE HOMEM IMUNDO? – e, voltando o rosto aos céus, dirigiu-se às nuvens negras de chuva, desta vez em tom mais ameno: Oh!, meu senhor, tens razão de estar descontente com estes homens incréus, e punir-nos com esta tempestade de ira.
Então, querendo evitar confusão, o capitão autorizou aos soldados que deixassem Blueberry, ainda inconsciente, no lado de fora, junto ao cocheiro. De lá, ouviam-se as rabugices abafadas do reverendo furioso, resmungando que este rapaz, caindo em vergonha, desonrava o exército dos Estados Unidos, um exército que deveria marchar sob a palavra de Deus, pois por Ele era protegido; que seu aspecto imundo e seu mal-cheiro insuportáveis só não eram piores do que o aspecto e o cheiro de sua alma encomendada ao demônio, mas que oh, meu Senhor, sua palavra sempre estará segura em minha mente e em meu coração, e estou aqui para, em nome de vossa generosidade e amor, salvar criaturas como esta, nesta terra inculta onde até os brancos são selvagens e rudes.
E assim os portões do forte se abriram e a diligência tomou rumo, chacoalhando com força na estrada destruída pela chuva torrencial que já durava dois dias. E foi num destes violentos balanços que o tenente Blueberry, após dormir entre os porcos, de sobressalto acordou.